A psicologia e os atletas olímpicos


Para muitas pessoas, imagens de maus momentos passam pela cabeça em situações de tensão. Mas no caso de Diego Hypólito, o “filme triste” começou a ser exibido em meio a um salto mortal.


“Aquelas cenas de Pequim me vieram à mente durante a série. Mas eu disse para mim mesmo que hoje era dia de conseguir, de deixar aquilo para trás”, afirmou o atleta, que neste domingo conquistou a medalha de prata nos exercícios de solo da ginástica artística da Rio 2016.


Hypólito, de 30 anos, fez mais do que exorcizar os demônios de dois Jogos Olímpicos - tanto em Pequim, em 2008, quanto em Londres, há quatro anos, ele sofreu quedas durante suas apresentações e perdeu medalhas olímpicas que pareciam iminentes. Ao finalmente subir ao pódio, e no Brasil, o paulista superou também a luta contra a depressão, que parecia ser seu maior adversário na volta ao tablado.


A depressão profunda lhe custou a perda de 10 kg, uma internação hospitalar e diagnóstico da comunidade esportiva de que as chances de ele ir à terceira Olimpíada tinham desaparecido. Ainda mais em uma idade relativamente avançada para um ginasta de elite.


Mas mais do que a bela história de redenção esportiva e pessoal presenciada na Arena Olímpica neste domingo, a recuperação de Hypólito serviu também para evidenciar um lado “mortal” de atletas que a mídia costuma ignorar.


“Como qualquer pessoa, temos problemas. Minha cabeça foi minha grande adversária, mas eu consegui me recuperar e gostaria que isso servisse de exemplo para as pessoas que me assistiram hoje. Que a gente pode vencer, acreditar em nós mesmos”, afirmou.


Efeitos invisíveis

Diversos estudos acadêmicos nos últimos anos vêm chamando a atenção para os efeitos invisíveis do estresse emocional em atletas de elite - e em especial a forma como ela pode ser ignorada por treinadores e dirigentes.


De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 350 milhões de pessoas ao redor do mundo, de todas as idades, sofrem com algum tipo de depressão, que já é a segunda maior causa de morte global entre pessoas de 15 a 29 anos.


E embora especialistas vejam a incidência de depressão ocorrendo de forma mais comum entre atletas recém-aposentados, que sofrem para lidar com o fim da rotina de treinos e competições - o que conheceram como vida durante anos -, uma corrente de psicólogos ligados à área esportiva vê um tipo particular de episódio depressivo ligado justamente ao binômio sucesso-fracasso


Um estudo publicado no Canadá em 2013 descobriu que a presença de um atleta em um grupo de elite o tornava mais propenso a ser depressivo. Especialmente depois de um mau desempenho.


“Ele chegou de cabeça boa e disposto a trabalhar. Comigo, o divã dele era treinar”, disse Goto. Mas a frase também ilustra a relutância que o meio esportivo ainda tem em aceitar a possiblidade de fragilidade psicológica entre atletas.


“Hoje em dia, o esporte já aceita bem mais a importância de um trabalho psicológico. Não estamos falando de magia ou de algum tipo de coaching, mas sim de uma ciência que não vai necessariamente fazer com o que o atleta vá ganhar medalhas", afirma Sâmia Hallage, psicóloga a serviço do Comitê Olímpico Brasileiro e que trabalha há dois anos com o ginasta.


"Acima de tudo, temos que admitir que o atleta é um ser humano como outro qualquer, enfrenta adversidades e tem história de vida.”


Não por acaso, a psicóloga foi uma das pessoas que Hypólito agradeceu nas entrevistas após a prata. “Eu tive depressão, passei por um momento difícil, mas a Sâmia me reconstruiu emocionalmente”, disse o atleta.


Em entrevista por telefone à BBC Brasil, porém, ela preferiu dar o crédito ao paciente. “As adversidades ficam mais notáveis no caso de um atleta, e o Diego foi corajoso ao falar publicamente do problema que teve. Mas eu não reconstruí ninguém. A psicologia apenas ofereceu ao Diego as ferramentas. Foi ele que se reinventou e voltou a ficar feliz como pessoa. Trabalhamos ele como ser humano, não apenas o atleta.” No caso de Hypólito, a reinvenção deu em medalha.


Arthur Nory, 22, que conquistou a medalha de bronze, também tem ajuda de uma profissional da área, mas para um problema diverso. Se Hypolito sofre com a falta de energia, Nory tem excesso.


"A vontade dele de entrar no tablado, ganhar medalhas e disputar a Olimpíada gera uma ansiedade que pode não ajudar. Ele tem muita expectativa, e então isso gera ansiedade, o que é normal. Por isso, trabalhamos com ele algumas técnicas de ancoragem no presente", conta Cláudia Cristina Ide, 41, psicóloga do clube Pinheiros que acompanha Nory há sete anos, ou seja, desde que o atleta tinha 15 anos.


A psicóloga também foi uma das responsáveis pela carreira de Nory na ginástica. Quando ele chegou ao Pinheiros, seu pai, o judoca Roberto Mariano, queria que o filho praticasse a arte marcial —Nory chegou a ser atleta de judô do Palmeiras por certo tempo. Coube a Cláudia convencê-lo a deixar o garoto seguir no esporte de que mais gostava.


Fontes: BBC Brasil e Folha de S. Paulo.


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